sábado, 25 de maio de 2013
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Exemplo prático de um caso de Mediação Familiar II
Informação prévia
“Albano e Rosa estão nos seus cinquenta. São proprietários duma quinta na qual trabalharam em conjunto. Rosa deixou Albano há 2 anos e vive com um novo parceiro. Têm dois filhos crescidos que trabalham e são independentes do ponto de vista financeiro.”
1ª sessão de mediação
“Na primeira reunião Albano está muito calmo, parece deprimido. O mediador tem de o manter envolvido na reunião fazendo-lhe perguntas diretas, reconhecendo preocupações de ambas as partes e repetindo ou reenquadrando as suas respostas. Quando são colocadas perguntas genéricas duma forma indireta, Rosa responde por ambos e Albano fica calado. Mantém os olhos baixos e não é fácil estabelecer contato visual com ele.
Não parece haver questões a curto prazo visto que este casal resolveu muito bem os seus problemas durante os últimos dois anos. Continuam a ter uma conta bancária conjunta. À primeira vista os problemas parecem ser basicamente de natureza financeira, resultante do divórcio que Rosa pretende obter. Albano está extremamente relutante em falar de divórcio.
Dificuldades na 1ª reunião com Albano e Rosa
1.Albano está muito afastado. Parece ter-se refugiado atrás duma parede de dor e tristeza. Ainda tinha esperanças de que Rosa voltasse para ele. Pretende adiar o divórcio tanto quanto possível.
2. Rosa está impaciente e frustrada. Acha que assumiu uma atitude discreta para dar a tempo a Albano para aceitar o facto de que ela o tinha deixado. Ela não pode esperar indefinidamente.
3. Albano receia que a quinta a que ele se sente profundamente ligado e da qual depende do ponto de vista financeiro tenha de ser vendida se Rosa insistir numa solução total e final.
4. Rosa está ressentida com o facto de que todo o trabalho que ela realizou durante muitos anos para aumentar a rentabilidade da quinta seja negado por Albano. Ela pretende “uma quota justa”.
5. Rosa é dogmática e fala alto. Albano está quase sempre calado. O mediador observa um episódio em que Rosa ataca verbalmente Albano: Albano recua ainda mais e Rosa, frustrada pela falta de resposta, ataca ainda mais veementemente.
6. Rosa tem um novo parceiro. Albano não tem.”
Excerto retirado do livro Mediação Familiar, Lisa Parkinson, 2008.
Estas “anotações” do mediador podem parecer muito claras, mas importa referir que a informação recolhida nas primeiras sessões de mediação não advém só do que é verbalizado pelas partes, mas também da postura não-verbal de cada um e da dinâmica relacional que se observa em sessão. Nos casos de mediação, acontece frequentemente os interesses verbalizados inicialmente pelos mediados não corresponderem aos verdadeiros interesses que os levam a recorrer à mediação, encontrando-se estes camuflados. Pode acontecer que os próprios mediados nem tenham noção deste desfasamento. O primeiro trabalho do mediador deve ser o de escutar e descobrir o que poderá estar latente no discurso dos mediados. Podemos encarar esta situação pensando que nenhum conflito é como se apresenta à superfície, tal como um icebergue, existe sempre uma parte oculta que não é visível.
Carolina Teves
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Pedra no Caminho
Há
algum tempo atrás li algures uma lenda que rezava algo mais ou menos
assim:
Havia
um rei muito sábio que não se poupava a esforços para ensinar bons
hábitos ao seu povo e para isso fazia com frequência coisas
aparentemente estranhas.
-Nada
de bom pode vir para uma nação, cujo o povo reclama e espera que os
outros resolvam os seus problemas. As coisas boas acontecem a quem
lida com os seus problemas – dizia ele.
Certa
noite enquanto todos dormiam, ele colocou uma pedra enorme na estrada
que passava pelo palácio. Depois escondeu-se atrás de uma cerca
para ver o que acontecia.
Pela
manhã, veio um agricultor na sua carroça carregada com sementes
para entregar no palácio:
-
Onde já se viu isto?! - disse contornando a pedra – Estes
preguiçosos não retiraram esta pedra! - e prosseguiu o caminho,
reclamando da inutilidade dos outros, sem contudo, ele próprio tocar
na pedra.
De
seguida, passou um soldado que cantando pela estrada, tropeçou na
pedra e caiu.
-
Bolas! - vociferou enquanto pontapeava a pedra e atirava terra para o
ar, irado pela irresponsabilidade e insensatez de quem não tirava
dali a pedra.
Todos
os que por ali passavam reclamavam indignados pela presença da pedra
no caminho.
Ao
cair da noite, a filha do moleiro, cansada da sua jornada de
trabalho, percorria a estrada do palácio. Ao ver a pedra estacou e
disse:
-
Está a anoitecer, podia ter caído aqui! E se a pedra amanhã ainda
aqui estiver ainda posso cair ou pode alguém também cair e
magoar-se. Vou tirar esta pedra daqui!
Tentou
arrastar a pedra, mas era tão pesada...Então empurrou, empurrou e
empurrou e ainda que aos bocadinhos de cada vez e levando bastante
tempo conseguiu dali retirar a pedra. Eis que então, no lugar onde a
pedra estava descobriu para sua surpresa, uma caixa. Levantou a tampa
e leu: Esta caixa
pertence a quem retirar a pedra
e olhando para o seu interior viu que se encontrava repleta de ouro.
Quantas
vezes nos deparamos com pedras no nosso caminho e quantas vezes as
evitamos, contornamos, reclamamos por existirem, por alguém as ter
lá posto e por nada acontecer para que deixem de lá estar. Contudo,
esquecemos-nos ou não queremos ver que temos também
responsabilidade na sua permanência no nosso caminho. Muitas vezes
o medo de retirarmos as pedras do nosso caminho mantem-nos
prisioneiros de situações que não nos satisfazem, ao fim ao cabo,
não sabemos o que está para lá da pedra, não sabemos o que vai
ficar se a retirarmos e mantemo-nos então "confortavelmente"
instalados no desconforto, na incerteza, na dor, no
sofrimento...Outras vezes, sentimo-nos incapazes e fracos para as
removermos sozinhos ou até achamos que se elas ali estão, nada mais
há a fazer do que parar de caminhar.
A
terapia constitui-se como forte aliado para olharmos para as pedras
que nos incomodam e nos dar uma nova visão tanto delas, como do
desconhecido que está para além e no lugar delas. A terapia ajuda a
encontramos dentro de nós " a filha do moleiro".
Elisabete
Gomes
quarta-feira, 8 de maio de 2013
"Um
dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um
é como é."
Fernando
Pessoa
-
Nós não aceitamos este tempo. Queremos sol e não aceitamos que
estamos nos Açores e que chove e vai chover.
-
É mesmo...
- É uma resistência que temos, se aceitássemos não daríamos
conta.
-
Eu confesso a minha resistência... nem casaco trouxe...
- Com este que tenho vai dar ao mesmo... vou ficar encharcado. Mas
trouxe guarda-chuva...
-
Preparado, mas perplexo com o tempo. É, realmente, difícil de
aceitar. E andamos nisto. Porque sabemos que existe sol, que isto é
mais bonito com sol, que agora mesmo está sol noutro sítio. E
insistimos. Insistimos em falsos problemas. Sim. Falsos, pois não
há bem uma solução. É como dizes: por que raio não aceitamos e
pronto?! Se fosse um problema procurava a solução de colocar o
sol. Aceito. Não aceito. Resisto. Vejo: é uma limitação e
ultrapassa-me! Não há nada que possa fazer para que pare de
chover! Olha, é como aquela notícia de há pouco... aquela do
acidente na A2... uma fila de quilómetros! O que vais fazer?!
Voar?! Não podes! Esperas!
-
Mas podes ligar o rádio...
- Exacto! Distraíres-te com qualquer coisa e, até mesmo, usufruir,
descobrir... sei lá...
-
Sim, ocupar-me, não preocupar-me.
-
Não podemos mudar tudo o que nos incomoda.
-
Podemos adaptar-nos.
-
E contornar. E ser feliz também nos dias de chuva.
-
E esperas pelo sol?
-
Ele vai aparecer... vivemos nos Açores, ele aparece!
Ruben Santos
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Expressão Corporal para a vida pessoal
O
corpo é um canal privilegiado para o trânsito da energia pessoal e
dos outros. No corpo integra-se o físico, o psíquico, o social e o
familiar.
O objectivo da Expressão Corporal é lograr que a pessoa se liberte dos
seus bloqueios. Tonificar, fortalecer e flexibilizar o corpo físico
fará com que possa transitar pelas suas diversas personalidades ou
facetas sem ficar preso em nenhuma. Potenciará-se assim a
vitalidade e a alegria.
O
trabalho corporal fará com que a pessoa tome contacto com a sua
riqueza pessoal e com o seu potencial transformador. Ampliar a
capacidade respiratória. Sincronizar e alinhar os seus centros de energia Facilitar o encontro consigo próprio e os outros. Melhorar
a postura e assim aliviar dores corporais. Recuperar o romance com o próprio corpo. Mover-se, dançar, jogar e divertir-se. Expandir a consciência.
E como o grupo 180 Terapias Acores acredita que não é só através da palavra que se encontra a cura, em Junho vamos a oferecer-vos a oportunidade de participar num workshop dirigido pela Guadalupe de la Aldea sobre trabalho corporal. Guadalupe é psicóloga e dançarina de contemporâneo, especializada em expressão corporal em Buenos Aires (Argentina)
Um luxo a não perder, mais perto da data daremos mais informações! Fique atento/a
sábado, 27 de abril de 2013
Paternidade e Erotismo
O sexo
faz bebés. Daí que seja irónico que a criança, personificação do
amor do casal, ameace tantas vezes o romance que lhe deu existência.
O sexo, que pôs toda essa operação em andamento, é muitas vezes
abandonado assim que os filhos entram em cena. Muitos casais apontam
a chegada do primeiro filho como o início do declínio da sua vida
erótica. Por que motivo desfere a paternidade um golpe tão fatal?
A
transição de dois para três é um dos desafios mais profundos com
que um casal tem de lidar. Precisamos de tempo – e tempo medido em
anos, não em semanas – para encontrar as nossas referências nesse
admirável mundo novo. Ter um bebé é uma revolução psicológica
que altera a nossa relação com quase tudo e quase todos, desde a
amigos, pais e sogros. Os nossos corpos mudam. O mesmo acontece à
nossa vida financeira e profissional. As prioridades alteram-se, os
papéis são redefinidos, e o equilíbrio entre liberdade e
responsabilidade conhece uma extensa reformulação. Apaixonamo-nos
literalmente pelos nossos bebés e sabemos, já que em tempos o
vivemos com os nossos parceiros, que a paixão é um estado
absolutamente absorvente que empurra tudo o resto para segundo plano.
Constituir família exige uma redistribuição de recursos e, durante
uns tempos, parece restar pouco para o casal.
Mais
cedo ou mais tarde a maioria de nós consegue voltar a reconhecer-se
no seio deste novo contexto familiar. É nessa altura que o romance
torna a fazer parte do tecido das nossas vidas. Lembramo-nos que o
sexo é bom; que nos faz sentir bem e nos aproxima.
Enquanto
alguns casais voltam a gravitar para junto um do outro, outros
vagueiam por um caminho de mútuo afastamento. Recuperar a intimidade
erótica nem sempre é fácil. A questão é que os pais de hoje,
independentemente da classe a que pertencem, andam sobrecarregados de
trabalho e sentem-se esmagados sob esse peso. Como consequência,
deixam o sexo para segundo plano nas suas agendas, reservando-o para
quando tiverem terminado de atender a solicitações mais prementes.
Os
casais corajosos e determinados que mantêm uma relação erótica
são, acima de tudo, aqueles que a valorizam. Quando sentem que o
desejo está em crise, tornam-se zelosos e fazem tentativas francas e
diligentes no sentido de o ressuscitar. Sabem que não são as
crianças quem apaga a chama do desejo; são os adultos que deixam de
saber mantê-la viva.
Adaptado
de Perel (2008), “Amor e desejo na relação conjugal”
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Como
saber quando procurar ajuda profissional para ajudar a superar a sua
experiência de perda/luto?
É
importante não “patologizar” o luto encarando-o que se fosse uma
doença, no entanto, também é importante garantir a reorganização
da própria vida depois de uma perda significativa.
Podemos
ficar “bloqueados” de muitas maneiras no ciclo do luto. O luto
pode estar aparentemente ausente, cronificar-se ou representar uma
ameaça na nossa vida. Estes resultados negativos são mais prováveis
nos casos de perdas traumáticas (por exemplo, os que implicam danos
no próprio corpo ou quando um ser querido é vítima num acidente).
Também pode ser dificil a acomodação a mortes “fora de tempo”
que não estão sincronizadas com o ciclo de vida familiar, como pode
ser o caso da morte de uma criança.
As
características da pessoa que sofre a perda também podem influir no
processo e no resultado do luto, caracteristicas estas que podem incluir o uso de estratégias como o recorrer a ansiolíticos ou ao alcool. Por
último, os factores contextuais, como o apoio social com o que a
pessoa conta, também podem facilitar ou
dificultar a elaboração de um luto saudável.
Um
exemplo especialmente dramático é o fenómeno da “sobrecarga de
luto” em que o indivíduo se enfrenta com as mortes simultaneas ou
sequenciais de um grande número de outros
significativos.
Como
pode saber quando deve procurar ajuda para além do seu circulo
habitual de amigos e familiares, para assimilar a sua própria
experiencia de perda?
Uma
resposta possível é se pode reconhecer que ficou “bloqueado” no
seu luto: se foi incapaz de “sentir” durante meses pela perda do
seu ser querido, ou pelo contrário, se se sente “preso” no seu
sofrimento intenso e implacável, que pode chegar a pô-lo em perigo
a si mesmo ou às pessoas que tem à sua responsabilidade.
Ainda
que todos devamos tentar encontrar sentido para as nossa perda e para
a vida que levamos depois de sofrê-la, não há nenhum motivo para
fazê-lo de forma heroica, sem o apoio, os conselhos ou as ajudas
concretas dos outros.
Quando
procurar ajuda?
A dor, a solidão e
as perturbações que acompanham o luto não têm nada de “anormal”,
no entanto, há alguns sintomas que deveriam levar-nos a procurar um
profissional ou alguma pessoa do nosso meio que possa ajudar-nos:
profissionais de saúde mental, médicos, guias espirituais, grupos
de apoio. Cada pessoa deve tomar a sua decisão livremente mas deve
colocar seriamente a possiblidade de falar com alguém sobre o seu
luto se apresenta algum dos seguintes sintomas:
. Sentimentos de
culpa intensos, provocados por coisas diferentes às que fez ou
deixou de fazer no momento da morte do seu ser querido;
. Pensamentos de
suicídio que vão mais além do “desejo passivo de estar morto”
ou de poder reunir-se com o seu ser querido;
. Desespero extremo,
a sensação de que por muito que tente nunca vai poder recuperar uma
vida que valha a pena viver;
. Inquietude ou
depressão prolongadas a sensação de estar “preso” ou
“lentificado” mantida ao longo de vários meses;
. Sintomas físicos,
como a sensação de aperto no peito ou perda substancial de peso,
que podem representar uma ameaça para o seu bem-estar físico;
. Ira descontrolada,
que faz com que os seus amigos ou seres queridos se distanciem ou que
o leva a “planear uma vingança” da sua perda;
. Dificuldades
continuadas de funcionamento que se manifestam na sua incapacidade
para conservar o seu trabalho ou realizar as tarefas domésticas
necessárias à vida diária;
. Abuso de
substâncias, confiando demasiado nas drogas ou alcóol para desterrar
a dor da sua perda.
Qualquer destes
sintomas pode ser uma caracteristica pasageira de um proceso normal
de luto, mas a sua presença continuada deve ser causa de
preocupação e merece a atenção de um profissional para além das
figuras de apoio informal presentes na vida de cada um de nós.
Adaptado de Neimeyer
(2000) “Aprender de la perdida”
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