quarta-feira, 25 de março de 2015

A importância do tocar



“Recordo-vos que os sensores da pele nos permitem sentir o calor e o frio, a pressão exercida ou recebida, os movimentos de deslocação. A qualidade do tocar o corpo de outrem, quer no simples aperto social de mãos quer na caminhada para a intimidade da sexualidade amorosa, como a da conjugalidade, é reveladora da natureza da qualidade inter-relacional.

Não imaginamos o que seria ficarmos incapacitados desta possibilidade de expressão do «corpo da alma».

Um casal que não se toca é um casal afectivamente morto: o seu harmónio emocional paralisou, na distância de uma abertura sem música.

Mas há tocar e tocar. Também se «toca» o corpo desta palavra. Há uma vibração amorosa que, mesmo na distância física, que as circunstâncias podem impor ao casal, faz com que a palavra se torne linguagem do corpo da alma.

(…) É o contacto com o outro o que mais lhe falta; um «tocar», em que vibramos graças ao uníssono dos sensores da pele, com os delicadíssimos sensores do «Corpo da Alma», que nos fazem viver o belo, o bom e os dons «intocáveis» fisicamente, que nos abrem a «essenciais invisíveis» ao olhar (Saint-Éxupéry)”.


F. Pina Prata, Terapia Sistémica de Casal. Respigando Ideias e Experiências.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A chegada do primeiro filho

A chegada do primeiro filho é um momento vivido com muita alegria, felicidade e expectativa pelos pais e familiares, mas é também um processo que implica inúmeras mudanças e adaptações na vida dos recém-papás e, consequentemente, provoca sentimentos de ansiedade e incerteza, que podem colocar alguns desafios ao casal, mas fazem parte deste processo de crescimento familiar. E eis que chega o momento tão esperado….

“Até ao nascimento da primeira criança tudo se joga ao nível do desejo, do imaginário, da expectativa… Sobre o que é ser pai, sobre o que é ter um filho, sobre o que será esse filho, sobre o que ele poderá dar ou tirar ao casal e à família.
Esta é a única preparação possível e minimamente eficaz para o bom desempenho do estatuto da parentalidade; com efeito sabem-se os resultados bem negativos das “aprendizagens” para ser pai e/ou mãe em escolas “formais” ou através de livros. Para o casamento, os indivíduos preparam-se pelo namoro que, por muito artificial que seja, permite, apesar de tudo, um simulacro de uma aprendizagem concreta da relação conjugal. Para a vida profissional, estuda-se, “forma-se” o sujeito em determinada área e especialidade, estagia-se, treina-se no terreno. Para se ser pai ou mãe aprende-se através da fantasia antecipatória desde criança, brincando com bonecas e aos pais e às mães. Aprende-se com os próprios pais observando o modelo parental que fornecem e, mais tarde, imaginando o bebé que se vai ter e a forma de se relacionar com ele: as alegrias e satisfação que dará, mas também, as dificuldades e problemas que suscitará.
Este último passo é acelerado ao longo dos nove meses de gravidez, nos quais a realidade do bebé assume já contornos irreversíveis, tornando-se particularmente importante e específicos para a mãe. Se se associar a este aspecto toda a evolução tecnológica de controlo da gravidez, nomeadamente a ecografia com a possibilidade de identificação provável do sexo da criança bem como do seu tamanho e peso bastante antes do nascimento, podemos comprovar o sentimento de necessidade de antecipação e confirmação da imagem criada. Aliás, este avanço científico, com a credibilidade que lhe é inerente, não fez mais do que dar aos futuros pais uma resposta, com margem de incerteza reduzida, relativamente a outros “métodos” utilizados popularmente com o mesmo objetivo, como a forma de balançar a agulha suspensa pela linha, a “forma da barriga”, a cara da grávida com ou sem “pano”, bonita ou feia…
E assim, armados de muito amor e de uma imagem do bebé e da relação pais-filho, construída nesta amálgama de experiências imaginadas na Escola de Fazer Pessoas como lhe chama V. Satir, muitas vezes em menos de vinte e quatro horas, os futuros pais são confrontados com o facto de já o serem efectivamente, e com um bebé que não coincide com o imaginado. Começa a grande tarefa do ajustamento. A criança nasceu e o peso da responsabilidade face ao seu futuro impõe-se, a ansiedade de “não poder fazer errado” irrompe e as corridas, a falta de tempo, o cansaço e o desencorajamento surgem, numa tarefa em que não é permitido desistir. A parentalidade é para sempre. Nela não há férias nem reforma. Em relação aos filhos não se aceita o divórcio. A não-parentalidade não pode ser recapturada.”


Relvas (2006). O Ciclo Vital da Família. Perspectiva sistémica. Pág. 81/82

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015


“És uma óptima Mãe” 

“O meu prazer é imenso quando a minha pele toca a tua pele, quando, com o ouvido encostado ao teu peito, escuto as tranquilizadoras batidas do teu coração. Nos momentos em que, com os meus lábios, rodeio o teu mamilo e chucho com todas as minhas forças, sinto-me o ser mais feliz ao cimo da Terra.
Encanta-me quando me agarras e me abraças, quando me beijas e me demonstras o teu amor, com as tuas atenções e o teu estar dependente de mim. Gosto que trates de mim e me animes como só as mães sabem fazer. (…).
Posso viver tranquilo porque sei que tu estás aí. Que vais ocupar-te de mim e das minhas necessidades. Só por veres um gesto meu, correr para mim e, contente, vais satisfazer-me. Aceitas muitos dos meus caprichos, com um sorriso nos lábios, sabendo que isso me faz feliz. Gosto desta brincadeira e repito-a, até que te aborreças comigo e me ralhes.
Não podes imaginar a raiva que sinto com as tuas descomposturas, quando te negas a fazer-me as vontades e fico frustrado. Quando penso nisso, o pior é que quase sempre tens razão, mas não tenho vontade de o admitir. Sinto-me pequenino ao teu lado quando te faço perder a calma e me gritas ou mal me levantas a voz. (…).
Não posso viver sem ti, não saberia enfrentar o mundo sem a tua ajuda. Sinto-me, não como uma pessoa, mas apenas como uma parte. Tremo de medo, só de pensar que me deixas e que fico sozinho.
És uma óptima mãe. Avalio e admiro a tua capacidade de dar amor maternal, mas eu casei-me contigo e quero ser um adulto que convive com a sua mulher e não com a sua mãe. Quero-te muito; mas quero crescer, sentir-me uma pessoa por inteiro, sentir-me um homem capaz de viver a sua vida de forma autónoma. Não quero depender de ninguém e tão pouco de ti. Quero estar contigo por desejo, não por necessidade. Quero viver contigo e não através de ti. (…).
É importante que tenhas a tua própria vida e que eu tenha a minha e que compartilhemos uma parte de ambas, porque assim queremos, e não porque dependamos um do outro. Assim poderemos dar vida a esta nossa parceria para que não se consuma pouco a pouco. ”

“Digo-te, Porque Gosto de Ti!”
José F.Zurita



       

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Aproxima-se o final do ano 2014…



Uma altura propícia para fazer um balanço do ano que passou …

Assim, propomos que este ano criem (ou caso já tenham criado, que mantenham) um ritual de passagem de ano.
Procurem um momento em que possam estar convosco próprios ou partilhar com outra pessoa,  o que viveram neste ano que termina, procurem recordar as mudanças que ocorreram na nossa vida, as experiências porque passaram, as dificuldades superadas, as relações que construíram.  Deve ser um momento para festejar o que viveram e se congratularem. Mesmo as experiências mais difíceis e dolorosas fazem-nos crescer e aprender. Aproveitem também para traçar objetivos para o próximo ano…

Deixamos algumas sugestões:

Reservar um momento para estar a sós e reflectir
Escrever uma carta e guardar para ler daqui a um ano
Realizar uma actividade para nos “mimar”, como por exemplo, uma massagem
Escolher uma música que simbolize o ano de 2014
….

Caso desejem podem partilhar também connosco os rituais que escolheram ou que já costumam fazer.


Que 2015 seja um ano muito feliz para todos nós!!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014


Não te queixes….!


“Já vejo que estás em apuros. Algo te saiu mal, mas não te queixes, meu filho. A queixa não serve para nada, e a única coisa que podes conseguir é que os outros sintam pena de ti e que, movidos por ela, corram a salvar-te.
Se o que queres é sair de alguma situação difícil, e tens um pouco de amor próprio, não deixes que a tua comodidade faça com que os outros te resolvam o problema. Se necessitares de ajuda, pede-a, mas sem te queixares de forma lastimosa. Informa da tua necessidade quem seja capaz de ajudar-te, e isso não diminuirá em nada o teu valor, se a pedires directamente. Em algum momento, todos nós necessitamos que alguém nos dê a mão. Não existe ninguém capaz de fazer tudo sozinho, sem ajuda.
Se enquanto brincas com os outros meninos surge algum problema com algum deles, és tu que deves resolvê-lo. Aqui não há lugar para queixas. Às vezes pode ser oportuno protestar, o que é muito diferente. Diz-lhe o que foi que te molestou, mas a ele. Não venhas até a mim a choramingar, para que seja eu a enfrentar o outro menino e a tirar-te do aperto. O problema é teu e deves ser tu a encarregar-te da situação.
Assim, irás aprendendo a resolver os teus assuntos por ti mesmo, e quando fores grande, saberás sair airosamente das situações difíceis que se te apresentarem ao longo da vida. É muito importante, acredita-me, que aprendas a resolver os problemas que surgem no relacionamento com outras pessoas. Se não fizeres agora, brincando, ver-te-ás em grandes dificuldades quando fores grande e, então, já não se tratará de nenhuma brincadeira.
(…)
Pensa nisto, filho. Se te queixares, não aprendes e passas mal, já que assumes o papel de vítima, e esta posição não é possível sem sofrimento, além de não conseguires nenhum resultado positivo para ti. Em lugar de te queixares, podes pedir ajuda, protestar ou pôr limites, segundo o caso. Verás que, depois de teres resolvido por ti mesmo o teu problema, te sentirás mais satisfeito e terás conseguido tornar-te um pouquinho mais crescido.”             


“Digo-te, Porque Gosto de ti!” José F. Zurita

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

"Humor e criatividade"


"O humor é um dos ingredientes base para construir um contexto terapêutico produtivo. (...) é importante saber sorrir, utilizar o humor e a criatividade como portas de acesso, tijolos com os quais se cria uma relação autêntica entre o terapeuta e os membros da família.
O humor e a gargalhada são instrumentos essenciais no jogo relacional, porque asseguram uma espécie de continuidade subtil, uma marca de contexto capaz de garantir a todos uma autorização para continuar a " brincar" com os problemas sem se sentirem por isso, inferiorizados ou julgados.
A ambivalência inerente ao brincar ao "como se", priva a família da tentação fácil de recorrer ao mecanismo da recíproca culpabilização, arma secreta ao serviço das tão possíveis quanto inúteis escaladas simétricas. O humor é portanto o regulador do processo terapêutico ( Andolfi, Angelo, 1987).
Se a linguagem do quotidiano e um sentido de otimismo para enfrentar as dificuldades e problemas, mesmo quando graves, forem recuperados, o rir das coisas terá produzido um primeiro efeito: o vê-los " como se fosse exterior", ainda mais quando as pessoas nos parecem " dentro até ao pescoço", tornando-se num instrumento muito potente para introduzir empatia no trabalho terapêutico. Ao mesmo tempo, se o humor consegue tocar as regras relacionais mais recônditas da família e deslocá-las de nível, produzir-se-á em sessão um aumento da tensão interpessoal e uma procura de maior autenticidade, elemento indispensável para desencadear um processo de mudança.
A gargalhada em terapia representa uma espécie de queda estridente da tensão: um momento de relaxamento, apenas aparente, de todo o sistema terapêutico, a que se concede uma pausa. Na realidade a interrupção tem o objetivo de desviar o stress do espaço interpessoal, isto é, da área das relações, para o espaço interno, mais indefeso e vulnerável, de cada indivíduo. 
É precisamente a suspensão da ação que sucede à gargalhada a produzir um vazio, um momento de silêncio extremamente produtivo que pode permitir verificações internas e conduzir cada um a colocar novas interrogações."
(Andolfi, 2013 " A criança como recurso terapêutico", Alfragide, Editorial Caminho)